João Paulo Feliciano e Lee Ranaldo

PO

A galeria Pedro Oliveira, no Porto, inaugura hoje, 27 de Abril, duas exposições individuais: The Amps de João Paulo Feliciano e Lost Highways de Lee Ranaldo. É a segunda vez que estes artistas expõem juntos, a primeira foi em 2007 nos EUA. 

João Paulo Feliciano | The Amps

30 .04 > 08.06.2013

João Paulo Feliciano – Nasceu nas Caldas da Rainha, Portugal, em 1963. Vive e trabalha em Lisboa, Portugal.

1. Em 2004 decidi que finalmente estava na altura de ter um estúdio onde pudesse fazer as minhas coisas. Digo estúdio porque é mais abrangente, aplica-se a arquitectura, música e arte, mas também lhe chamo atelier ou escritório. É tudo isso e muito mais. Foi um período em que trabalhei intensamente, incluindo uma exposição em Serralves e a Bienal de São Paulo. Sabia que passar a ter um estúdio mudaria o tipo de coisas que ia fazer. Teriam a ver com arte e música, mas estava em aberto o que o espaço iria possibilitar. Nem fazia ideia de que poderia ter um estúdio de gravação profissional como agora tenho. Pus-me à procura com o Rui Toscano, coincidimos nisso. Eu queria um armazém mais ou menos open space. Morava em Xabregas, Zona Oriental de Lisboa, e quando fui para lá já tinha na cabeça que seria uma boa zona para procurar um atelier. Acabei por ficar a cinco minutos de casa, o que significa que vivo entre casa e estúdio. Em casa relaxo, durmo, como. Mas o estúdio passou a ser o sítio onde passo a maior parte do meu tempo.

2. Num estúdio podem acumular-se coisas, e com essas coisas fazer-se coisas. Isso aconteceu desde o princípio. Logo nos primeiros dias vieram todas as minhas ferramentas: serralharia, carpintaria, papelaria, mas também computador, máquina fotográfica, câmara de filmar, luzes, aparelhos, aparelhagens e instrumentos. Os meus amplificadores, dois ou três, as minhas guitarras, duas ou três, da fase Tina and The Top Ten. Todo o meu arquivo de vários anos a fazer arte e música e claro a colecção de discos e a aparelhagem de som. A música passou a fazer parte deste espaço, tanto para mim como para o Rui, com quem partilho o estúdio desde o primeiro dia em perfeita harmonia e na melhor convivência artística. Os nossos gostos musicais são coincidentes a 80 ou 90 por cento, por isso a banda sonora raramente é um probema.

3. Ao passar a ter este espaço foi natural retomar a actividade enquanto músico e, mais ainda, editor. Quando surgiram o Real Combo Lisbonense (RCL) e a Pataca Discos a presença da música deu outro salto. O atelier passou a ser também sala de ensaios — local de trabalho musical. E passei a partilhar o estúdio com o meu irmão Mário, fundador comigo do RCL. Durante um ano ou dois aumentou o ritmo a que chegavam novos instrumentos, aparelhagens e amplificadores. O meu ambiente de trabalho foi ficando cada vez mais rodeado de ferramentas musicais e plásticas. A convivência entre estes dois universos, natural em mim, passou a ter um espaço físico onde é vivida quotidianamente. O sítio onde faço música é o sítio onde penso as peças, funciona a editora e produzo os discos.

4. Há muito que as colagens fazem parte dos meus recursos, com fotografias, recortes ou fotocópias. Já fiz muitas peças recorrendo a material que fotografo e uso como matéria prima: recorto e recomponho. Desta vez usei essa técnica cingindo-me a amplificadores. Agradam-me como metáfora e iconografia. Existem quase 20 amplificadores aqui no estúdio, de todos os géneros, muitos vintage, algo exóticos ou requintados, a grande maioria comprada em segunda mão, no eBay, em lojas online especializadas, directamente a pessoas ou na feira da ladra. Cada amplificador tem a sua personalidade. É como ter várias guitarras: há as acústicas, as semi-acústicas, as elétricas…Têm funções diferentes e às vezes compram-se por intuição. Quando estamos a tocar, e em especial a gravar, podemos escolher entre várias paletas sónicas.
Para a exposição, fotografei 16 amplificadores em close up por partes, com um iPhone. Interessava-me uma câmara “rápida”, imediata e a resolução da imagem não era determinante. Usei a Hipstamatic por ser popular e ter logo à partida uma boa qualidade plástica. De cada amplificador fiz entre 4 a 20 fragmentos que mandei imprimir em papel fotográfico. Essas impressões são a matéria para as colagens.

5. Além das peças dos amplificadores, núcleo principal e inédito, incluo nesta exposição Um Par de Pari.es, uma peça mostrada na galeria Cristina Guerra em 2012, constituída por dois órgãos eléctricos iguais do final dos anos 60, marca Pari.e, recolhidos de uma loja de reparação de instrumentos antes de irem para o lixo, porque eram irreparáveis. É uma peça que resulta da convivência no estúdio-atelier com a prática musical e a presença de instrumentos, e estabelece uma relação óbvia com os amplificadores. – João Paulo Feliciano

Lee Ranaldo | Lost Highways 

30 .04 > 08.06.2013

Lee Ranaldo – Nasceu em Glen Cove, Nova Iorque (EUA), em 1956. Vive em Nova Iorque. Foi membro fundador do grupo Sonic Youth e é, actualmente, o líder da Lee Ranaldo Band.

Uma das minhas preocupações com o desenho é capturar paisagem.

Sendo alguém que viaja muito, valorizo o rápido esboço de uma vista particularmente interessante. A série de desenhos “Lost Highways” desenvolve um interesse meu surgido no final dos anos 70, como registar a paisagem enquanto passa pela janela de um automóvel em movimento – esse elementar veículo do século XX.
Em 1976, ainda um estudante de arte, fiz alguns esboços de paisagens em movimento captados da janela da frente da carrinha de um amigo enquanto viajávamos pela East Coast de Nova Iorque para Key West na Florida. Na altura, estava a aprender o processo de gravação em relevo e no ano seguinte converti um dos estudos numa gravura colorida de 3 placas. Estava longe de imaginar que mais de 30 anos depois estaria a fazer um trabalho similar desenhando estradas em movimento.

Actualmente passamos grande parte do nosso tempo metidos dentro de carros e eu, enquanto músico e constante viajante, passei longos períodos cruzando as Américas, Europa, Ásia, Austrália e outros lugares. Parece um facto da vida moderna que observemos com grande frequência paisagens através do pára-brisas de um qualquer veículo a motor. A questão que se coloca é: como desenhar uma paisagem em movimento? As minhas primeiras respostas foram gestuais, desenhando meadas de linhas que seguem o horizonte, a curva da estrada e as formas das árvores, continuamente sobrepostas sobre si mesmas, formando uma imagem cinética. Com o tempo, algumas imagens iconográficas estabeleceram-se, certas curvas na estrada, vistas através de quebras nas árvores que já foram vistas vezes sem conta, não importando onde estejamos a viajar. A estrada, como o rio, está sempre em mudança, mas permanece imutável.

Fiz estes desenhos no verão de 2012 durante a tour da minha banda pela Europa e Estados Unidos, por ocasião do lançamento do álbum Between the Times and the Tides. A primeira série foi feita a partir do banco do passageiro de uma carrinha Mercedes Sprinter enquanto viajávamos pela Alemanha, e mais tarde, Dinamarca. A segunda resulta duma viagem pela parte oriental dos Estados Unidos, de Connecticut para a Virginia, New York City para Ohio. A terceira foi criada em Nova Scotia, no Canadá, no percurso entre Halifax e Cape Breton. – Lee Ranaldo (Abril 2013)

Link: Galeria Pedro Oliveira

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