Paulo Mendes: Sem Título

 

“Nas minhas propriedades tudo é plano, nada se move; e se surge uma forma aqui ou ali, de onde virá a luz? Nenhuma sombra. Às vezes quando tenho tempo, observo, sustendo a respiração; à coca. E se vejo alguma coisa emergindo, corro que nem uma seta e salto-lhe para cima; mas a cabeça, porque regra geral é uma cabeça, volta para o pântano; ponho-me a tirar ao balde, energeticamente; é só lama, só lama, perfeitamente vulgar; ou areia, areia.”

Henri Michaux, As minhas propriedades

uma exposição de Paulo Mendes

para o Laboratório das Artes (Guimarães)

– de 8 de Fevereiro a 9 de Março, 2013 –

Paulo Mendes, 'Sem Título', em exposição no Laboratório das Artes, Guimarães, 2013. Cortesia do artista.

Paulo Mendes, ‘Sem Título’, em exposição no Laboratório das Artes, Guimarães, 2013. Cortesia do artista.

Do alto das suas cadeiras do poder, os políticos decidem sobre o futuro de Portugal. Dignitários eleitos subordinados às directivas dos anónimos burocratas que vasculham os livros de contas correntes nos gabinetes da república portuguesa. Proeminentes carreiristas, eles falam, eles dizem, eles fazem e desfazem, balbuciam palavras incongruentes, desinformados e inconsequentes. Eles estão atestados de importância simbólica e esvaziados de ideias. Nada de novo, a agonia persiste, para a frente, marche!

À direita e à esquerda, o pluralismo partidário converge numa cronologia de asneiras feitas. Os académicos da escola de Chicago coçam as virilhas e os admiradores da Goldman Sachs lambuzam-se na sofreguidão do último rating. Anacronismo de pensamento, o vigor económico e auto-regulado dos discípulos de Chicago e do poderoso dólar espatifou-se contra o muro da realidade há vários anos. As regras iriam mudar, nada mudou.

Paulo Mendes, 'Sem Título', em exposição no Laboratório das Artes, Guimarães, 2013. Cortesia do artista.

Paulo Mendes, ‘Sem Título’, em exposição no Laboratório das Artes, Guimarães, 2013. Cortesia do artista.

A subsidiodependência, a sustentabilidade, programas políticos sem estratégia, estamos prisioneiros de discursos dependentes da sebenta política de consumo imediato. Políticos com carreiras de um cinzentismo requentado, correligionários primários de ensinamentos internacionais que há muito provaram a sua falência. Esforçados burocratas impregnados de uma mesquinhez claustrofóbica, espécie de autismo e ansiedade perante a matéria desconhecida.

A arte não altera a vida, mas a vida altera a arte. Como pode o individuo coexistir no espaço da sociedade? A comunidade que vem, a insurreição que vem. O diálogo está bloqueado. É preciso dinamitar os modos convencionais, as regras. A crítica perdeu o poder a favor da massificação. Produz-se para consumir não para pensar, reflectir, criticar. Desenganem-se os ingénuos, resta o poder da palavra e a força do gesto.

Paulo Mendes, 'Sem Título', em exposição no Laboratório das Artes, Guimarães, 2013. Cortesia do artista.

Paulo Mendes, ‘Sem Título’, em exposição no Laboratório das Artes, Guimarães, 2013. Cortesia do artista.

Ministros e conselheiros da área económica reafirmaram a reconstrução iminente do tecido económico. Discutiram na reunião concessões e privatizações, com a trivial rigidez cerimonial, omitindo a corrupção entre o passado e o presente. Eles justificaram-se na sua linguagem técnica e encriptada como funcionários diligentes em regime de austeridade de ideias. Não é aceitável mas é lícito.

As imagens apresentadas foram filmadas ao longo da última década, fixando momentos banais de um quotidiano que se relaciona de forma directa com locais ou acontecimentos simbolicamente relevantes da história política recente de Portugal. 

Narrativas em que aparentemente nada acontece e que evocam o que está para além do enquadramento apresentado, o que se situa “fora de campo”. Não há nada de heróico na lassidão de um quotidiano cinzento. Histórias não lineares cortadas com as lâminas de uma crua realidade. Fragmentos de um filme sobre o Portugal presente, de uma realidade estilhaçada, entre a desintegração social de um país á deriva e a contestação social em surdina num gesto de desespero contido. Micro histórias de uma macro história politica, de utopias interrompidas, entre a incoerência e a demagogia de uma classe política irresponsável e impune, o país move-se, entre a vulgaridade da sua decadência e as histórias menores dos seus protagonistas anónimos. Um país nostalgicamente sem memória, sem projecto de futuro, que procura um rumo, uma nova narrativa para o seu futuro, mais uma vez adiado.

A realidade é um facto ruidoso com consequências dissonantes.

Paulo Mendes, Fevereiro 2013

Excertos deste texto foram apropriados de “Os políticos e as suas propriedades” que Paulo Mendes escreveu e publicou na revista Parasita em 2012. O texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.

Paulo Mendes, 'Sem Título', em exposição no Laboratório das Artes, Guimarães, 2013. Cortesia do artista.

Paulo Mendes, ‘Sem Título’, em exposição no Laboratório das Artes, Guimarães, 2013. Cortesia do artista.

Paulo Mendes (n. Lisboa em 1966). Trabalha em Lisboa e no Porto.

Artista plástico de formação, comissário de exposições e produtor de projectos culturais. Fundador e membro da direcção da Plano 21 – Associação Cultural. Apresenta o seu trabalho individualmente e em colectivo desde o início da década de 90. Através da aproximação à realidade social, a sua produção assume fortes contornos de afirmação política. A contaminação entre as várias disciplinas – visuais e performativas – e a diversidade de suportes usados caracterizam o seu trabalho. Participou e comissariou numerosas exposições, independentes e institucionais, que marcaram o desenvolvimento do trabalho de uma nova geração de criadores.

Curso de pintura da ESBAL/FBAUL, 1988–93 (Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa). Membro fundador e coordenador da revista de projectos de arte ARTSTRIKE e da GALERIA ZERO, 1991–92. Co-autor do projecto DR. MABUSE, 1994– Membro fundador e co-editor da revista NÚMERO, 1998–2000. Co-autor e coordenador do projecto INDEX (1998). Autor, programador e comissário dos projectos W.C. CONTAINER + IN.TRANSIT (1999–2009), TERMINAL (2005). Autor do projecto para Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura: Collecting Collections and Concepts. Director de produção dos projectos: Edifícios e Vestígios; Buildings and Remnants; Devir Menor para a Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura

http://www.youtube.com/user/paulomendesvideo

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