Lida Abdul (CAM-Gulbenkian)

Lida Abdul, White House 4, 2008. Cortesia da artista e da Galeria Giorgio Persano.

Lida Abdul, White House 4, 2008. Cortesia da artista e da Galeria Giorgio Persano.

CAM (F C Gulbenkian)

até 31.03.2013

‘uma beleza que magoa’

O Centro de Arte Moderna, da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, celebra este ano 30 anos de existência.

O trabalho desta artista afegã (Cabul, 1973), radicada nos EUA, já foi definido como ‘uma beleza que magoa’. De facto, os seus vídeos mostram ficções que têm tanto de encantatório como de melancólico. Filmados nos Afeganistão, mostram as cicatrizes da guerra através de situações performativas insólitas, como por exemplo, pintar uma casa, em ruínas, de branco ou preencher os buracos de um avião, soviético abandonado, com algodão. 

Curadoria: Isabel Carlos

A primeira exposição de Lida Abdul (Cabul, 1973) em Portugal apresenta Time, Love and the Workings of Anti-Love a nova instalação da artista composta por uma máquina fotográfica, trezentas fotos tipo passe e som: uma voz que diz um texto pungente que tem tanto de belo como de doloroso. A voz, ou a ausência dela, é algo importante na obra de Lida Abdul.

No vídeo In Transit, de 2008 – que integra a exposição conjuntamente com White House Dome, de 2005, e White HorseBrick Sellers e War Games, de 2006 –, um grupo de crianças brinca em volta da carapaça de um avião soviético abandonado. O termo «carapaça», oriundo do mundo animal, não é aqui escrito por falta de vocabulário mecânico, mas sim pelo facto de a imagem deste avião semidestruído, esburacado – que aliás começa por nos ser mostrado em imagem parada como uma fotografia, para que o nosso olhar se demore e fixe nele –, mais parecer um corpo ferido, um esqueleto. Mas, regressando à ausência de voz, In Transit possui texto que corre como legendas e que funciona como pensamentos, como uma voz off sem voz de um(a) narrador(a), imaginamos que deverão ser os pensamentos da própria artista sobre a atividade daquelas crianças em torno dos destroços do avião: cordas atadas que tentam puxar e mover o aparelho, incitando-o a voar, e a colocação de algodão nos buracos, muitos deles que percebemos serem resultantes de balas, como quem trata e tenta reanimar um corpo moribundo. O som que ouvimos é sobretudo o do vento num descampado, o que, aliás, ocorre em outros vídeos de Lida Abdul e reforça a dimensão de desolação e abandono.

Lida Abdul, In Transit, 2008. Cortesia da artista e da Galeria Giorgio Persano.

Lida Abdul, In Transit, 2008. Em exposição no CAM – Gulbenkian, 2013.

«Anything is possible when everything is lost» é uma das primeiras frases-legendas que surgem em In Transit e pode ser uma síntese perfeita de uma boa parte da obra e da postura de Lida Abdul frente à sua própria vida de exilada. Tudo é possível, até mesmo que um cavalo fique imóvel como uma estátua como que para facilitar a tarefa de o pintar que um homem inicia num gesto um pouco incompreensível, como acontece em White Horse.

Tudo é possível, até que uma afegã radicada na Califórnia volte com regularidade ao seu país natal e, em condições de isolamento, insista em registar a paisagem e o povo que aí habita após três décadas de guerra. A desterritorialização do corpo implica uma reterritorialização do rosto, mas, quando falamos de um país em guerra, a desterritorialização é levada praticamente ao limite e ao absoluto, não só no corpo, mas também na paisagem, na arquitetura, nos seres vivos em geral. As imagens que nos surgem através dos media do Afeganistão são de guerra e de soldados, não dos seus habitantes e do modo como vivem ou da sua fisionomia. A obra de Abdul, ao mostrar-nos este lado, opera uma espécie de redenção – não por acaso o branco é uma cor que percorre a maior parte dos seus trabalhos, a cor da redenção por excelência, a cor da paz e do desejo de purificação e a cor do luto até à Idade Média na Europa.

Ao querer redimir o Afeganistão, Abdul incita-nos a ver uma cultura e um povo do qual praticamente não nos chegam imagens, mas fá-lo não através da criação de imagens com pathos, que simplisticamente estabelecessem uma identificação emocional do espectador com a obra – por exemplo, não mostra imagens de dor ou sofrimento –, antes ações um pouco «irreais»: puxar uma ruína com cordas, crianças a entregar tijolos numa fila em troca de uma nota ou um rapaz que olha fixamente o céu dentro de uma casa que já não tem teto. As ruínas são uma permanência na obra da artista, elas surgem nos seus vídeos como relíquias, como restos de algo que foi importante e que já não existe e, por isso, não são mero objeto de contemplação mas exigem ação: tentar movê-las, pintá-las. No início do seu percurso, Lida Abdul recorreu frequentemente à performance e ao autorretrato – em White House é ainda ela mesma que pinta de branco o resto das paredes e também a camisa negra de um homem no que podemos considerar ser uma performance filmada.

Lida Abdul, Dome, 2005 e White House, 2005. Cortesia da artista e da Galeria Giorgio Persano.

Lida Abdul, Dome, 2005 e White House, 2005. Em exposição no CAM – Gulbenkian, 2013.

A relação entre ruína, performance, fotografia e vídeo não é assim tão descabida quanto num primeiro momento poderíamos pensar. A fotografia e o vídeo sempre estiveram associados à performance pela necessidade de registar. A afirmação de Susan Sontag de que toda a arte aspira à condição da fotografia e de que todas as fotografias são um memento mori, ganha total sentido frente à prática da performance, dada a sua efemeridade, o de acontecer num momento único. A fotografia é indispensável à performance porque é através dela que podemos estudar e documentar o que se passou e também porque é o único modo de evitar o desaparecimento total do tal momento efémero e único. A fotografia e o vídeo são assim para a performance uma espécie de ruína, ou uma relíquia, o que resta de uma acção que aconteceu; estabelecem uma relação de ausência-presença – «o fotógrafo, quer queira quer não, está comprometido na tarefa de envelhecer a realidade, e as fotografias são elas mesmas antiguidades instantâneas». Este carácter de relíquia, de ruína, altera completamente a atitude coletiva frente à natureza da arte. A arte não mais transcende a história, antes admite a historicidade, a implicação no tempo, a pertença a um dado momento e contexto. A obra de Lida Abdul é disso prova e as suas imagens mostram como quando tudo parece estar perdido é sempre possível fazer algo.

Desde há três décadas, o Afeganistão encontra-se em cenário de guerra, herdámos um exemplo-chave da humanidade no seu pior e, possivelmente, no seu melhor, já que o desastre, por definição, rompe com o processo mecânico da moralidade, e confronta-nos com o ‘estranho’, ‘o misterioso’, o desumano, o cruel e o inexplicável. A vida é feita de amor e o amor é feito de tempo. As fotografias são fatias de tempo, uma espécie de confirmação da realidade. Uma vez que a realidade no Afeganistão é dura, as vidas desses homens são difíceis, alguns aparentam setenta anos quando têm quarenta. E este viver acelerado é o desenlear inconsciente do tempo do desastre. (…) Lida Abdul 

Lida Abdul, Dome, 2005 e White House, 2005. Em exposição no CAM-Gulbenkian, 2013.

Lida Abdul, Dome, 2005 e White House, 2005. Em exposição no CAM-Gulbenkian, 2013.

Time, Love and the Workings of Anti-Love, 2013

Excerto do texto da instalação sonora:

“Uma vez que passas metade do dia escondido por detrás de uma lente

ou com um trapo sujo a cobrir-te a cabeça 

Uma vez que olhaste para o rosto de um homem que durante décadas dormiu ao lado da morte 

Uma vez que vistes rostos de crianças que nunca tiveram razão alguma para sorrir

Uma vez que fotografaste um espaço vazio em dias onde nada existia em redor

Uma vez que sentiste mais segurança no casulo da ténue escuridão entre ti e a tua câmara fotográfica

Uma vez que fotografaste pássaros engaiolados 

Uma vez que cegaste à mercê dos ventos do deserto que te queimam os olhos para te fazer esquecer (…)

Uma vez que vistes meninos soldados de rostos devastados e sujos onde pó, lágrimas e fumo se misturam (…)

Uma vez que os teus sonhos são povoados por rostos desconhecidos

Então, viver, morrer, sonhar ou amar tudo é o mesmo 

Então, a nostalgia é um vinho cujo excesso acabará por te matar

Então, ao final do dia o medo senta-se a teu lado

E com ele partilhas histórias do que viste

E imaginaste o que ainda resta para sentir.

(instalação sonora (voz Damon Lee), câmara fotográfica, 542 fotografias p/b com aproximadamente 3,7 x 2,6 cm cada.


(C) Imagens: cortesia CAM – F. C. Gulbenkian e Galeria Giorgio Persano.

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