Rodrigo Amado: Un Certain Malaise (exposição)

Untitled # 20, Moscow, 2008, da série ‘Un Certain Malaise’ de Rodrigo Amado. Em exposição no Museu da Electricidade, em Lisboa.

A exposição ‘Un Certain Malaise’ de Rodrigo Amado estará patente, até 10.02.2013, na Fundação EDP – Museu da Eletricidade – Cinzeiro 8, em Lisboa.

As fotografias de “Un Certain Malaise” apresentam-nos uma crónica visual composta por uma série de imagens captadas em Moscovo, Varsóvia, Berlim e Copenhaga, inspiradas no universo do poeta Herberto Hélder. 

Rodrigo Amado – Algumas Cidades

Embora registando espaços interiores, exteriores ou abrindo-se ainda a elementos fragmentares de uma natureza fragilizada pela mão do homem, embora fixando lugares distantes e distintos na geografia política e cultural da Europa, embora descobrindo corpos diferentes entre si (mas todos em trânsito entre um mundo de sombras e um campo de silêncios), o conjunto de duas dezenas de fotografias de Rodrigo Amado estabelece um percurso urbano que podemos imaginar coeso. Como se as imagens colecionadas nos levassem a percorrer (vendo, ouvindo, agindo) as diferentes cidades que existem numa mesma cidade subjetiva. E há estratégias de fixação imediata (visual) do tema e estratégias de desenvolvimento sequencial (narrativo/musical) desse mesmo tema que Rodrigo Amado explora – poderemos perceber melhor os sentidos destas imagens sabendo que Os Passos em Volta, de Herberto Hélder, foi a obra de onde partiu e aonde chegou esta sua viagem interior. Vivendo do adensamento emotivo presente em cada imagem e que se transfere de imagem para imagem, a unidade da série nasce não de qualquer ilusão de unidade dos lugares mas através do subtexto narrativo que nos cabe desvendar. Mas a tensão é imediata e constante, não necessita de se somar imagem a imagem; é um peso que se instala desde a primeira fotografia num território indeciso entre o olhar e a pele. O processo transfere a representação dos lugares incómodos para o interior do nosso corpo. E é aí, onde o olhar pensa, que somos tomados por uma indefinida melancolia. E é aí que nos identificamos com cada recanto destas cidades. E é aí que nos podemos finalmente perguntar: o que perdemos do que nunca foi nosso? Texto de João Pinharanda para a exposição ‘Un Certain Malaise’ de Rodrigo Amado.

 

Untitled # 1, Berlin, 2009, da série ‘Un Certain Malaise’ de Rodrigo Amado. Em exposição no Museu da Electricidade, em Lisboa.

Untitled # 17, Moscow, 2008, da série ‘Un Certain Malaise’ de Rodrigo Amado. Em exposição no Museu da Electricidade, em Lisboa.

Untitled # 18, Moscow, 2008, da série ‘Un Certain Malaise’ de Rodrigo Amado. Em exposição no Museu da Electricidade, em Lisboa.

Untitled # 7, Berlin, 2010, da série ‘Un Certain Malaise’ de Rodrigo Amado. Em exposição no Museu da Electricidade, em Lisboa.

Rodrigo Amado nasceu, em Lisboa, em 1964. Recebeu a sua primeira máquina fotográfica aos 18 anos, uma Kodak Instamatic, tendo desenvolvido desde cedo um forte fascínio pela fotografia. Na década de 80, frequenta um curso de iniciação à fotografia na escola ARCO, em Lisboa, fotografando, durante anos, família, amigos e viagens. Em Setembro de 2001, funda, juntamente, com Pedro Costa e Carlos Costa, a, hoje internacionalmente consagrada, editora Clean Feed, totalmente dedicada à edição de projectos na área do jazz contemporâneo. A partir de então, intensifica a actividade e realiza fotografias para dezenas de cd’s, cartazes e posters da editora – Paul Dunmall, Bernardo Sassetti, Carlos Barreto, entre outros. Vê muitas das suas fotografias publicadas em jornais como o Público, o Expresso ou o Diário de Notícias. Com uma Nikon FM2, realiza, em 2002, aquele que pode ser considerado o seu primeiro projecto fotográfico (inédito), registo em slide 35mm de uma viagem   de 45 dias entre San Francisco e New Orleans, com passagem por Los Angeles, San Diego, Baja California (México), Santa Fe, Amarillo e Memphis. Em 2006, participa num workshop de portefolios da Kameraphoto, onde trava conhecimento com António Júlio Duarte, com o qual inicia uma longa colaboração criativa, que se mantém até hoje e dá origem à sua primeira exposição individual de fotografia: Closer Closer. Sendo um dos principais nomes do jazz de vanguarda nacional, Amado desenvolve uma forte ligação entre a música e fotografia, ligação que ganha particular significado nas edições de Surface, dedicado a Stephen Shore, ou Searching for Adam, cujos concertos no grande auditório da Culturgest e na Casa da Música integraram a projecção de imagens da série fotográfica com o mesmo nome. Encontra-se, actualmente, a preparar a edição do seu segundo livro de fotografia: East Coasting or 86 Lost Classics. É ainda responsável pela crítica de jazz do jornal Público.      

Fotografias: © Rodrigo Amado: da série ‘Un Certain Malaise’. Cortesia do artista.

Fotografias da exposição ‘Un Certain Malaise’: José Soveral para This is Now | Making Art Happen, 2013.

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