alkantara festival 2012

mundos em palco 

23.05  –  10.06

Thomas Wallgrave: direcção artística

O alkantara festival iça as velas sob um céu muito mais sombrio do que na sua anterior edição. O continente europeu está submetido a um regime de austeridade que põe em causa conquistas essenciais à sociedade e à democracia. Os artistas da edição de 2010 anteciparam este panorama, levantando questões sobre direitos sociais e laborais e sobre os valores básicos da democracia que há muito eram considerados um fait accompli. Menos de dois anos depois, a relevância destas preocupações pode quase ser sentida fisicamente, alimentando os cabeçalhos diários nos jornais europeus. O alkantara 2012 recebe artistas com uma visão pessoal forte acerca do que acontece à sua volta. Estes tendem a ser observadores precisos, demonstrando uma sensibilidade particular para captar os sinais dos tempos antes de estes marcarem a sua presença na cultura mainstream e na imprensa. Thomas Walgrave e a equipa alkantara festival.


O alkantara festival 2012 concentra-se explicitamente na profunda crise do modelo cultural, social e económico centrado no indivíduo. Muitas obras, como por exemplo o díptico En Atendant / Cesena de Anne Teresa De Keersmaeker, partem do Nós e não do Eu. A inflexão, no entanto, é a de um ponto de interrogação e não de uma exclamação. Que ‘comunidade’ é esta que se tornou tão popular usando demasiadas vezes o discurso sócio-cultural contemporâneo de uma forma redutora e paternalista? E como pode esta ‘sociedade’ coexistir com o espaço do indivíduo? Bouchra Ouizguen, os quatro criadores de (M)imosa ou Boyzie Cekwana e Panaibra Canda colocam em palco arquétipos sociais, políticos e de género, num território de clara fricção com o individual e o íntimo. Philipp Gehmacher regressa às origens da denominação das coisas, enquanto João Fiadeiro e Fernanda Eugénio sugerem uma premissa ontológica de Secalharidade. Schwalbe ou o quarteto de a coming community partem do grau zero do seu próprio corpo e do corpo de quem se encontra a seu lado. Os espectáculos do alkantara 2012 respiram muita energia. Reúnem gente olhando o horizonte, o amanhã, por mais incerto que possa ser o futuro. Gente que encontra esperança na sua arte. Veja-se o caso das sussurradas declarações de amor à literatura emThe Quiet Volume, Tiago Rodrigues e os seus camaradas mais improváveis em busca de um teatro relevante e crítico ou a defesa apaixonada da complexidade da música e da arte de Antoine Defoort e Julien Fournet. Thomas Walgrave e a equipa alkantara festival.

As imagens desta página são apenas de alguns dos espectáculos que destacamos, ver aqui a programação completa e aqui os vários locais onde o festival decorre.

foto de destaque na página anterior: © Unheimlich, a série fotográfica que acompanha esta edição do alkantara festival, foi criada por Luciana Fina e Moritz Elbert, em Lisboa, Janeiro de 2012.