cultura é vida

A situação da cultura e das artes é, de facto, preocupante (e não só em Portugal). Tendo em conta a actual crise económica, todos os sectores da sociedade são afectados e terá de existir alguma “compreensão”, por parte dos diversos agentes culturais, para este quadro “negro”. O que não significa pensar a cultura como bem supérfluo ou desnecessário. Trata-se, na realidade, de um bem essencial à vida em sociedade. A precaridade do sector já era notória. O que se seguirá? A sua asfixia? Existem imensos estudos, ensaios, pensamentos, dissertações sobre o valor da cultura – enquanto factor de transformação da evolução humana; factor de desenvolvimento económico; instrumento de aperfeiçoamento do indivíduo; dimensão fundamental da existência humana; expoente máximo da liberdade de um povo; etc., etc., etc. Eu diria que ‘Cultura é Vida’. Não a queremos defunta.

“A Cultura não é o lugar de revelação alguma, é apenas o lugar onde todas as revelações são examinadas e discutidas sem fim. Para que cada um de nós possa viver dessa discussão infinita do mundo e de si mesmo.” Eduardo Lourenço

“A cultura é da ordem do ser, a civilização é a da ordem do ter. Temos o sentido da etiqueta, mas somos bem ou mal educados. Temos o hábito do jogo, mas há algo que nos inscreve mais metafisicamente no jogo do mundo”. Eduardo Prado Coelho

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É importante ler este excelente artigo de Augusto M. Seabra: 

A Cultura “à rasca”

Ípsilon – Público – 06.05.2011 – Augusto M. Seabra

O que já parece inaceitável é que, neste quadro de crise e de cortes no sector, se opte por “dividir o mal pelas aldeias”, sem olhar a manifestos irrealismos, a estrangulamentos e a pontos que deviam ser estratégicos.

É dramática em vários países europeus, Portugal incluído, a situação de cortes nos apoios públicos à cultura.

Para abordar o quadro geral, começo por invocar uma cena altamente simbólica ocorrida no passado 12 de Março, na Ópera de Roma, quando do começo na capital das comemorações dos 150 anos do “Risorgimento”, a unificação política da Itália. Riccardo Muti dirigia o “Nabucco” de Verdi – e, como se sabe, “Viva Verdi!” foi uma palavras de ordem do processo de unificação, entre outros devido ao mais célebre momento daquela ópera, o coro dos hebreus cativos, “Va pensiero”. O entusiasmo foi delirante e os pedidos de “bis” também. Que conste dos anais, Muti apenas tinha concedido um “bis”, quando jovem estreante do Scala em 1986. Pois desta vez não só repetiu o coro e apelou o público a cantá-lo também, como, facto inédito, usou da palavra num discurso claramente político: apelou ao “Risorgimento” da Cultura, “que só ela fez a História e a unidade da Itália”. Como na cena inicial do “Senso” de Visconti, em que caem panfletos no La Fenice de Veneza após o “Di quella pira” de outra ópera de Verdi, “O Trovador”, o mesmo se passou agora em Roma: “Itália ressurge na defesa do património da cultura”!

No dia 30 de Março, o Arts Council England anunciou a distribuição de subsídios. O Conselho, cujos fundos, note-se, provêm no fundamental de receitas de lotaria, estava num dilema entre os objectivos estratégicos por ele próprio delineado para um horizonte de 10 anos, num documento do ano passado, “Achieving great art for everyone”, e um corte determinado pelo governo conservador de 15 por cento do orçamento. Das 1330 instituições que solicitaram apoios apenas 685 o obtiveram.

Claro que tem sempre de haver uma avaliação de múltiplos parâmetros na atribuição de fundos culturais públicos. Mas há razões para nos determos nas linhas gerais desta decisão. As grandes instituições culturais como o National Theatre, a Royal Opera House, a Royal Shakespeare Company ou a Tate foram das que tiveram cortes menos acentuados, supostamente por serem aquelas que maior capacidade têm de atrair mecenato, um factor pertinente. Mas foram drasticamente cortadas ou não houve nenhum subsídio, duas instituições londrinas de continuada tradição de modernidade, o Institut of Contemporary Arts e o Almeida Theatre, como sobretudo muitas outras dispersas pelo país – “Achieving great art for everyone” ou afinal apenas para os das grandes metrópoles?

Podia também falar da situação difícil de muitos museus espanhóis, sobretudo de arte contemporânea, que vinham sendo implementados e apoiados pelas Regiões. Mas gostaria um pouco de me deter no caso e história do Arts Council England.

Quando se pensa num paradigma de ministério da Cultura, logo ocorre a figura tutelar de André Malraux, nomeado para o cargo por De Gaulle em 1959. Compreende-se o facto porque se tratava mesmo de um ministério, mas há injustiça em obnubilar quem, além do mais, foi uma das figuras mais influentes do século XX: nada menos que John Maynard Keynes, o autor de “General Theory of Employment, Interest and Money”, o teórico das políticas públicas e do Estado Social. Foi ele, com efeito, em 1941, o primeiro presidente do CEMA, o Comittee for Encouragement of Music and the Arts, que antecedeu o Arts Council, e que em 1945 pela primeira vez atribuiu fundos públicos a entidades artísticas e culturais.

A partir deste “tópico keynesiano” há uma derivação possível que importa considerar. Embora, que me ocorra, o economista americano Robert Graves não a mencione expressamente, a cultura pode ser considerada no conceito por ele teorizado de “merit goods”, “bens de mérito”, isto é o vector das políticas públicas não implementadas por razões financeiras mas outras do interesse geral, como a educação, a saúde e segurança social.

Há portanto toda uma História e todo um lastro teórico que justifica que a Cultura deva ser considerada um bem público e como tal objecto de apoios – os que estigmatizam a “subsiodiodependência” deviam ao menos fazer um esforço de discurso articulado, em vez das meras diatribes. Mas atenção, e isto há também que dizê-lo: há artistas e agentes culturais, sobretudo alguns com maior proeminência pública, que andam sempre a queixar-se de que não tiveram os subsídios suficientes. Em razão dos seus “curricula” e actividades até podem por vezes ter razão, mas não pode é haver um equívoco: o ministério da Cultura tem que apoiar os projectos artísticos e culturais mais relevantes, mas como ministério que é, o seu quadro é bem mais amplo e tem como horizonte último o conjunto dos cidadãos.

A cultura e nomeadamente o apoio às artes foram drasticamente atingidos pelos cortes orçamentais e cativações dos sucessivos PECs e do OE. Tenhamos contudo presente que essa é uma situação geral, num quadro de gravíssima crise financeira e económica e de emergência social. Infelizmente, pagaremos todos por múltiplos erros de governação, até ao desnorte actual.

O que já parece inaceitável é que, neste quadro de crise e de cortes no sector, se opte por “dividir o mal pelas aldeias”, sem olhar a manifestos irrealismos, a estrangulamentos e a pontos que deviam ser estratégicos. 
Não tem o mínimo dos sentidos, por exemplo, que o Instituto do Cinema e do Audiovisual tenha decidido dividir o apoio atribuível a uma longa-metragem para a produção de duas no concurso do Programa de Apoio às Co-produções com Países de Língua Portuguesa, tornando os projectos ainda mais sub-financiados e de difícil concretização. Já que falo de cinema, veja-se a situação da Cinemateca, que não é devida aos cortes orçamentais mas ao rígido aperto imposto pelo ministério das Finanças, no caso pela Portaria 4-A/2001, que, abrangendo a execução das despesas, faz depender da autorização prévia daquele ministério a circulação de cópias de filmes vindo do estrangeiro, limitando a instituição à programação do seu acervo próprio, e fazendo prolongar o anúncio de “sessão temporariamente suspensa”.

Mas há mais notícias e de especial gravidade.

Detesto a expressão “descentralização” no que ela supõe um movimento que irradia do “centro” para a “periferia”. Mas, mudando os termos, acho em absoluto crucial uma redistribuição territorial dos equipamentos culturais públicos – e daí que fosse tão importante concretizar a rede nacional de cine-teatros. Neste aspecto, aliás, invoco sim o modelo francês: criados (ou designados enquanto tal) em 1990, os diversos espaços culturais designados por “scène national”, são hoje 70 estruturas no conjunto do território, e custam ao Estado menos que só os quatro Teatros Nacionais de Paris (sem falar da “pera), a Comédie-Française, o Odéon, Chaillot e La Colline!

Apesar do muito que falta, também muita coisa já realmente mudou em Portugal, com estruturas como o Centro Cultural Vila Flor em Guimarães, o Teatro Municipal da Guarda, o Teatro Viriato em Viseu, a Casa das Artes de Famalicão, o Centro de Artes Performativas do Algarve, etc., sem esquecer dois dos mais importantes festivais portugueses, aliás em concelhos limítrofes, as Curtas de Vila do Conde e o Festival de Música da Póvoa do Varzim.

Já havia indícios de que os cortes poderiam afectar em particular estruturas como estas. Mas na semana passada soube-se o pior, inaudito mesmo: a Rede 5 Sentidos, englobando o Vila Flor, o Teatro da Guarda, o Viriato, a Virgínia (Torres Novas) e também um teatro de Lisboa, o Maria Matos, anunciou estarem obrigados a cortes e aos custos elevados de recorrer à banca, devido a um atraso nos financiamentos do Quadro de Referência Estratégica Nacional, QREN, isto é, têm atribuídas verbas do Fundos Europeu de Desenvolvimento Regional, mas não as contrapartidas de investimento nacional que o FEDER exige. A propósito escrevia-se justamente em Editorial deste jornal de 27-04: “Ontem, cinco teatros vieram a público dar conta desta realidade, lembrando que a falta de comparticipação do Estado de 1,2 milhões de euros os impede de receber verbas europeias no valor de 1,8 milhões. Bem se sabe que, face aos actuais constrangimentos, terá de haver mais critério e controlo nos gastos; mas uma coisa é rigor e exigência, outra é desperdício. No actual estado do país, não aproveitar até ao limite a ajuda europeia é um erro que raia o absurdo”.

Há semanas, uma das mais singulares instituições culturais de Lisboa, a Galeria Zé dos Bois, ou ZDB, publicou como anúncio neste suplemento um comunicado que exige ponderação. A ZDB é a única estrutura cultural de relevo que resta na zona do Bairro Alto, e uma instituição pluridisciplinar muito singular: galeria, espaço de música e de espectáculos e uma livraria. Ora, também neste caso, não há sinal do “reforço” prometido pela ministra da Cultura, após o corte global e único de 23 por cento dos apoios. “Os contornos inexplicáveis que caracterizam este processo fazem com que, até à data, a ZDB não tenha recebido uma única parcela do montante que lhe foi adjudicado para o presente ano e, consequentemente, tenha sido obrigada a recorrer ao créditos e a prescindir de colaboradores essenciais”.

Os cortes são infelizmente inevitáveis mas será demasiado pedir que sejam feitos com um mínimo de discernimento e não estrangulando estruturas das mais importantes?

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