Almada Negreiros | Museu da Electricidade

Almada Negreiros: O que Nunca Ninguém Soube que Houve

> 29 de Março, 2015

Museu da Electricidade | Fundação EDP (Lisboa)

Curadoria: Sara Afonso Ferreira

Almada Negreiros: O que Nunca Ninguém Soube que Houve é uma exposição que revela cerca de 70 obras de um dos mais importantes artistas portugueses do século XX. Na sua maioria são inéditos, nunca apresentados em exposição, provenientes do espólio da família, de coleções privadas e de instituições públicas. Obras agora expostas pela primeira vez no Museu da Eletricidade, no ano que assinala o centenário da revista Orpheu na qual Almada teve uma participação fundamental. Companheiro e cúmplice de Fernando Pessoa e Amadeo de Souza Cardoso no desencadear da Modernidade artística e literária, na década de 1910, figura polémica, mítica e (auto) mitificada, mostram-se aqui as experiências artísticas e especulativas de Almada em torno do desenho, da poesia e do número: livros de artista, ensaios caligráficos e de paginação, tipografia, manuscritos, desenhos de ilustração e pinturas, dando uma atenção especial à revelação de um vasto conjunto de inéditos, artísticos e bibliográficos.

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Museu da Electricidade (Lisboa)

O título desta exposição remete para o título de um livro, aqui mostrado pela primeira vez, criado entre 1921 e 1922 por Almada Negreiros: O Pierrot que Nunca Ninguém Soube que Houve. História Trágica Ilustrada com Sol e Palmeiras. Trata-se de um livro de artista, livro que transcende a definição comum («porção de cadernos ou de várias folhas de papel, pergaminho, impressas ou escritas à mão, cosidas juntamente e que formam um volume») e se transforma num veículo múltiplo de expressão artística em que o objeto total ultrapassa a soma das partes que o compõem, neste caso, o texto e os desenhos de Almada. Este livro único, inteiramente manuscrito, assim se apresenta desde logo. Estamos perante uma história, «ilustrada com sol e palmeiras», contada simultaneamente por desenhos (construídos também, como na capa, por palavras) e pela escrita desenhada do artista. Os cinco desenhos (a tinta da china) e as cinco páginas escritas (a tinta roxa pela mão do autor) encadeiam-se numa leitura que se quer global e que transcende a tradicional hierarquia entre o texto soberano e a imagem como mera ilustração. Tanto as palavras como os desenhos de Almada surgem, assim, enquadrados pela mesma moldura, de dimensões exatamente iguais, ocupando o mesmo espaço, na página branca da obra.

Este pequeno livro, emblemático e até aqui desconhecido no contexto da produção de Almada – poeta, pintor, desenhador, bailarino, performer: artista total por excelência –, aponta o rumo da exposição. O Livro do artista Almada: Livro para além dos livros, Livro de uma revelação.

O Livro que, para além dos muitos livros-de-Almada que constituem o núcleo central da exposição (livros que o são no sentido mais ou menos usual do termo), conta a história da dissolução das fronteiras da Arte, da experiência de um limite superado pelo poeta-pintor.

O Livro de uma revelação. Revelação da modernidade nos tempos de Orpheu, revelação da ingenuidade perseguida no seio do «Club das cinco Cores» e proclamada n’A Invenção do Dia Claro, revelação da Unidade (exposta no «1+1=1» almadiano), e revelação do Cânone ultimamente manifestado em Começar.

O título da exposição – Almada, O que Nunca Ninguém Soube que Houve – evoca também a novidade do corpus apresentado. A maquette do cartaz Boxe (de que apenas se conhecia a imagem, pouco fiel, publicada na revista Contemporânea em 1922) mostra-se sob uma nova luz, através de uma reprodução fidedigna a partir do original, que infelizmente não se pôde obter. O desenho Carnaval – o único que se localizou do conjunto publicado na revista Atlântida, em 1917 e 1918, acompanhando as «Impressões dos Bailados Russos» de Manoel de Sousa Pinto – apresenta-se hoje na sua forma primeira. Da coleção dos herdeiros de Maria Madalena Morais da Silva Amado (a «Tareca» do «Club das Cinco Cores»), revelam-se o manuscrito do poema La Lettre, o livro O Pierrot que Nunca Ninguém Soube que Houve, o desenho A Flôr e as duas aguarelas intituladas A Invenção do Dia Claro. São ainda trazidos à luz do dia, vindos do espólio de Almada, um caderno com as ilustrações originais para Era Uma Vez (banda desenhada publicada em 1926 no jornal O Sempre Fixe), um vasto conjunto de cadernos dedicados às pesquisas geométricas do artista e a maquette autógrafa de Orpheu 1915-1965.

A exposição divide-se em cinco momentos chave que seguem, grosso modo, uma ordem cronológica.

O primeiro momento centra-se no período de Orpheu e da experimentação vanguardista. As obras expostas, que pela sua diversidade exibem desde logo o carácter multifacetado de Almada – enquanto escritor, desenhador e homem de espetáculo – apontam para a íntima relação entre texto, imagem e performance. As palavras impressas, sublinhadas e ordenadas plasticamente na senda da revolução tipográfica marinettiana (nos manifestos, no Litoral e no K4 O Quadrado Azul), ilustradas pela mão do pintor (n’A Engomadeira), dão voz ao corpo do ator que se encena no palco de um texto (o Anti-Dantas é disso um claro exemplo), de um cartaz (Boxe), de um estúdio (nos retratos de Vitoriano Braga), ou de um bailado (no papel do «Diabo» n’A Princeza dos Sapatos de Ferro).

Num lugar à parte do fio condutor da exposição, revisita-se Orpheu através dos olhos de Almada. O artista recorda os companheiros do grupo inicial no livro Orpheu 1915-1965 (cujo formato em harmónio, modelo dos inúmeros livros geométricos que Almada então produz, retoma o do poema Litoral); nos retratos gravados de Fernando Pessoa e de Mário de Sá-Carneiro (que ilustram o livro-catálogo Almada: 10 primeiras gravuras riscadas em vidros acrílicos); e no desenho Lendo o Orpheu (estudo inicial para a encomenda dos Irmãos Unidos que o célebre Retrato de Fernando Pessoa viria a substituir).

O segundo e terceiro momentos, intimamente relacionados, evocam o «Club das Cinco Cores» e A Invenção do Dia Claro. Criado na esteira das representações portuguesas dos Ballets Russes (que Almada ilustra e a quem dedica um manifesto), no âmbito dos espetáculos de dança promovidos por Helena Castello Melhor (em que Almada participa como coreógrafo, bailarino e decorador), o «Club das Cinco Cores» ultrapassa o campo das experiências baléticas de Almada e torna-se, para o artista, a cena privilegiada da busca e da criação da ingenuidade. Proclamada n’A Invenção do Dia Claro, simultaneamente exposição, conferência e livro, a ingenuidade – essa vontade de «comunicar a “inocência” de uma visão depurada, infantil e quase primitiva da realidade», «através de um tom claro e de umas formas simples», de que fala Ellen Sapega – transforma o grito tipográfico do performer futurista no gesto manuscrito e desenhado do poeta-pintor finalmente uno.

Num quarto momento, da Tragédia da Unidade (que evoca o título de um texto de que se expõe o manuscrito), reúnem-se obras que expressam (embora toda a exposição o faça) o leitmotiv por excelência de Almada: «1+1=1». Unidade do poeta e do pintor (os desenhos expostos são livros, feitos de imagens apenas) dos polos feminino e masculino (Deseja-se Mulher), da coletividade e do indivíduo (El Uno, Direção Única, Sudoeste), ou de Pierrot e Arlequim – máscaras complementares de uma identidade que se procura e que se encontra (como o protagonista de Nome de Guerra) na multiplicidade dos caminhos percorridos e das metamorfoses vividas, seguindo uma direção voluntariamente única.

O último momento é dedicado à investigação de Almada no campo do número e da geometria, pesquisa enquadrada na incessante procura do Cânone que é, segundo Almada, a «regra única da cultura universal». Expõem-se os estudos para a Disposição dos Painéis de Nuno Gonçalves na Sala do Capítulo do Mosteiro da Batalha e para o painel Começar; os ensaios (publicados) Mito-Alegoria-Símbolo e A Chave Diz; e uma série de cadernos inéditos (encadernados, manuscritos e ilustrados pelo autor na década de sessenta), verdadeiros livros de artista que testemunham da obsessão de Almada pelo tema e da importância que o autor confere à geometria como meio de aceder ao conhecimento de uma forma essencialmente visual.

José Sobral de Almada Negreiros (S. Tomé, 7 de abril de 1893 – Lisboa, 15 de junho de 1970) estreia-se como desenhador humorista em 1911. Em 1913 expõe individualmente pela primeira vez e conhece Fernando Pessoa. A partir de 1915 – ano emblemático da publicação de Orpheu, revista fundadora do modernismo luso em que Almada se destaca – o desenhador-poeta procurará entre os movimentos europeus de vanguarda o sentido da sua individualidade artística e literária. Escreve intensamente – A Cena do Ódio (1915), o Manifesto Anti-Dantas (pb. 1916), Litoral (1916), Saltimbancos (pb. 1917), A Engomadeira (pb. 1917), K4 O Quadrado Azul (1917), etc. – e realiza a sua segunda exposição individual, em setembro de 1916, longe já do humorismo dos Salões. Almada é agora um artista provocador que assume, publicamente, como estandarte da modernidade e da luta contra o passadismo, o escandaloso rótulo de futurista.

Em 1918, na esteira das representações portuguesas dos Ballets Russes, Almada torna-se coreógrafo, bailarino, decorador e autor de bailados. O «Club das Cinco Cores», fundado no âmbito destes espetáculos pelo artista e pelas suas jovens bailarinas, marca a génese da ingenuidade, poética que Almada desenvolve em Paris, onde, entre janeiro de 1919 e abril de 1920, prossegue a sua aprendizagem artística fora das academias livres e dos ateliers. Ao regressar a Lisboa, Almada anuncia, numa exposição de desenho, A Invenção Do Dia Claro, o manifesto poético da ingenuidade, conferência proferida em março e publicada em dezembro de 1921. No início dos anos vinte, Almada começa a escrever Nome de Guerra (1925-1938), o seu único romance, participa nas principais exposições coletivas modernistas e colabora, como escritor e ilustrador, na imprensa e nas revistas literárias e artísticas mais representativas da modernidade portuguesa.

Almada conclui, no entanto, que «é viver o que é impossível em Portugal» e exila-se em Madrid, entre março de 1927 e abril de 1932. Durante estes cinco anos participa ativamente na cena artística e literária madrilena, convivendo e colaborando com alguns dos artistas, arquitetos e escritores mais relevantes da vanguarda espanhola. Em Madrid, Almada escreve El uno – tragedia de la unidad, onde ganha corpo a tese da unidade entre indivíduo e coletividade, questão incansavelmente retomada ao regressar a Portugal.

Detentor da sua personalidade artística e de alguma estabilidade, graças ao casamento com a pintora Sarah Affonso, em março de 1934, e às encomendas que começa a receber para grandes projectos arquitetónicos, Almada prossegue sozinho o caminho que tinha aberto com os seus camaradas de Orpheu, rumo à consagração. Como escritor e dramaturgo, com a publicação de Nome de Guerra, em 1938, e a estreia das peças Antes de Começar (1949) e Deseja-se Mulher (1963). Como pintor, sucessivamente premiado, autor das decorações a fresco para as Gares Marítimas de Alcântara (1943-1945) e da Rocha Conde de Óbidos (1946-1949). E como pensador, ensaísta de Ver (1943), de Mito – Alegoria – Símbolo (1948), e de A Chave Diz: Faltam Duas Tábuas e Meia no Todo da Obra de Nuno Gonçalves (1950), textos que teorizam a incessante busca do cânone, fundamento da criação universal, sintetizada no painel Começar (1968-1969) realizado para o átrio da Fundação Calouste Gulbenkian.

Artista de uma imensa inventiva, Almada foi uma das personalidades mais fascinantes da nossa cultura. Ícone do século XX português, a sua participação, em 1969, no programa Zip-Zip da RTP deu-lhe uma grande popularidade. Morreu em 1970, no hospital St. Louis dos Franceses, no Bairro Alto, no mesmo quarto onde morrera Fernando Pessoa.

Sara Afonso Ferreira

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Museu da Electricidade (Lisboa)

(C) imagens e texto: cortesia da Fundação EDP, 2015.

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