CCB – Cidade Aberta e Daniel Malhão Fotografias

Centro de Reuniões | Piso 1 

CCB | Centro Cultural de Belém

> 20 de Outubro de 2014

CCB: CIDADE ABERTA

Há pouco mais de 25 anos, o Estado português, através da Secretaria de Estado da Cultura e do Instituto Português do Património Cultural (IPPC), lançou o Concurso Público Internacional para o Centro Cultural de Belém (CCB), a construir no lado poente da Praça do Império, frente ao Tejo, num lugar ciclicamente mitificado na História de Lisboa. Esse gesto conduziria à criação do primeiro grande símbolo arquitectónico da Democracia portuguesa, fruto de uma estabilidade política e financeira, garantidas, então, pela recente integração de Portugal na Comunidade Europeia (1986).

A construção do CCB teve, na verdade, um duplo objectivo: criar a sede da primeira Presidência Portuguesa da CEE, em 1992, e, após esta, oferecer à cidade um lugar de celebração da cultura portuguesa, numa renovada relação de complementaridade com a criação artística internacional.

Ao concurso anónimo, lançado em 1988, compareceram 53 equipas de arquitectos, oriundos de 10 países, cujas propostas espelhavam as diferentes tendências presentes no debate pós-moderno, então em curso na cultura arquitectónica europeia e americana. De entre estas, o júri seleccionou 6 finalistas para uma segunda fase do concurso, já sem anonimato: Vittorio Gregotti/RISCO; Gonçalo Byrne; Manuel Tainha; Jean Tribel; Jean Pistre e, também, Renzo Piano (este último acabaria por desistir no decorrer do processo).

A exuberância “hi-tech” apresentada pelas duas equipas francesas lideradas por Tribel e Pistre – na senda dos Grands Travaux parisienses, então em voga – acabaria preterida em favor da sobriedade das três outras propostas que chegaram à apresentação e discussão final do júri. O debate decisivo, que remeteria a proposta de Tainha para terceiro lugar, deu-se, finalmente, entre uma “tessitura urbana” disseminada, traçada pela equipa de Byrne; e uma “microcidade” modulada, evocadora dos quarteirões compactos e dos palácios ribeirinhos lisboetas, lançada pelo consórcio liderado por Gregotti – numa espécie de dilema histórico “Ressano Garcia ou Eugénio dos Santos?”, conforme escreveria, inspiradamente, Nuno Portas (um dos membros do júri), em 1989.

A presente exposição resgata as maquetas das cinco propostas finalistas da segunda fase do concurso público internacional para o Centro Cultural de Belém. Estes objectos perdidos no tempo, mas agora, felizmente, restaurados – e da qual resultou a escolha do actual edifício do Centro Cultural de Belém, projecto conjunto dos arquitectos Vittorio Gregotti e Manuel Salgado/RISCO. Ao projecto vencedor (aqui em duas versões) e às restantes maquetas, junta-se um conjunto de fotografias recentes de Daniel Malhão, realizadas especificamente para este fim, e que documentam, de modo eloquente, o desenho regrado desta “cidade aberta” a todos, mas também a todas as formas de manifestação cultural.

Nuno Grande
Arquitecto e crítico de arquitectura

CCB, 2014

O CCB é parte integrante da paisagem urbana de Lisboa e pertence ao imaginário colectivo português pelo conjunto da actividade multifacetada que tem desenvolvido no decorrer das últimas duas décadas. É, simultaneamente, o símbolo de uma transição política europeia no nosso país e um espaço privilegiado, tanto para o lazer como para a cultura na sua diversidade. Para além destas classificações mais correntes, transformou a zona de Belém, marcada por um legado arquitectónico e paisagístico que nos devolve a memória de outras mudanças históricas, simbolizadas na arquitectura e no desenho dos jardins que essa zona da beira-rio lisboeta foi acolhendo.

Tendo esta breve descrição como repto, falta-nos olhar para o CCB como objecto arquitectónico, como corpo orgânico que se revela entre interior e exterior, escala e proporção que se cruzam internamente e na relação com o espaço envolvente. Foi neste contexto de observação que Daniel Malhão produziu uma série de fotografias, de que, aqui, se apresenta uma selecção de quinze imagens, que nos dá a ver várias tipologias de relações espaciais e taxonómicas que a construção pode revelar na sua complexidade cromática e material. É importante recordar que a proximidade de Daniel Malhão com a arquitectura, enquanto fotógrafo, se foi metamorfoseando numa relação do artista com o objecto que pretende trabalhar, ou seja, com a matéria que, por via da técnica e da reflexão do autor, virá a constituir-se como objecto artístico que, sem perder de vista o seu modelo, traduz para o observador tudo aquilo que as vulgares observação e fruição do espaço podem emudecer.

Esta série de fotografias revela um apurado rigor de composição que os grandes planos favorecem, sejam estes cromáticos ou definidos pelos tons intermédios, entre a luminosidade e a sombra. Contudo, Malhão dedica uma especial atenção ao detalhe, mesmo quando estamos em presença das paredes exteriores de grande escala, texturadas por uma métrica que privilegia o desenho ortogonal acentuado por pequenos pontos negros que fazem parte da estrutura técnica da cobertura do edifício. E esses detalhes ocorrem sob um ponto de vista (o seu) que distingue no registo da imagem os limites do enquadramento que nos deixam indícios do que está fora do campo da imagem e simplesmente poderia ser mais um plano: uma parede que se expandia para fora dos limites da imagem. Em vez disso confrontamo-nos com um contraforte, no limite, um elemento estrutural da arquitectura. A obra Jardim de Água 01 (2014) é exemplar do processo a que Malhão submete a imagem. Por outro lado, o cromatismo emerge como substância agregadora da espacialidade, principalmente nos interiores, que o artista fotografa sem lhe retirar a espessura, tão próxima da pintura, que lhe permite explorar a perspectiva e os valores volumétricos da sala, os quais se aproximam do monocromatismo (como se a aura de L’Atelier Rouge de Henri Matisse estivesse presente) interrompido pelos objectos negros, colunas de som e a silhueta de um piano que podemos observar na obra Palco. Grande Auditório (2014).

Assim, esta série de fotografias que Daniel Malhão realizou conduz-nos a recompor o nosso olhar sobre um objecto, neste caso em particular sobre uma construção, cujo significado e simbologia são elevados para um outro plano de relação com a cidade e com a mitificação que todas as obras atribuídas a uma ideia de celebração de regime acabam por absorver. Os espaços são reconhecíveis, relançam na nossa memória eventos, passeios, exposições, espaços, momentos de descanso e, sobretudo, propõem-nos um encontro com esse outro construído, cuja intimidade é agora mais próxima, tornando-nos mais atentos e permeáveis a essa arquitectura que nos é veiculada pelo olhar do outro.

João Silvério

Maio 2014

Textos

CCB Cidade Aberta: Nuno Grande

CCB, 2014: João Silvério

(C) imagens e texto: cortesia Centro Cultural de Belém, 2014.

Anúncios