Bela Silva: Toque de Midas

Alecrim 50 | Arte Moderna e Contemporânea (Lisboa)

> 17 de Maio de 2014

Curadoria: Luísa Santos

A lenda do Toque de Midas serve de mote para ver os desenhos e as esculturas de Bela Silva: conta a lenda que o Rei Midas transformava tudo o que tocava em ouro, tornando-se, à primeira vista, livre de problemas e com uma riqueza incomparável, maior e mais brilhante do que quaisquer outras. Não foi preciso muito tempo para perceber que ao transformar tudo o que tocava em ouro, não poderia comer e dificilmente teria alguém vivo à sua volta. Quis então voltar atrás no que desejou, apagar o seu pedido, e reconstruir a sua realidade.

Este é, genericamente, o processo destas obras por camadas de Bela Silva. São camadas de construção de aparências desejadas e de apagamentos ou questionamentos das mesmas tanto conceptual como formalmente. No sentido conceptual, pela metáfora de comportamentos humanos e sociais; no sentido formal, pela exploração da matéria. Estas camadas surgem de vários modos: nos desenhos, em formas que apagam outras formas que se transformam em novas personagens; nas esculturas, em dourados que concedem uma solidez que nega a sua forma originalmente fluída. Cada uma destas camadas é produzida recorrendo a diferentes métodos: em transparências sobrepostas, por pinceladas de dourado, através de camadas de cor, ou de papéis que são páginas de livros antigos e agora são casa para os animais que por ali passeiam livremente, de página para página.

O método de Bela Silva é também o de compreender a mecânica e as camadas das possíveis leituras entre o aparente e, talvez até objecto de desejo, a um primeiro olhar, e o real, a um segundo olhar. Ainda do lado de fora da exposição, pela montra da galeria, vemos uma superfície de grandes dimensões suspensa pelo tecto (Albarrada, 2014). Densa, cheia de camadas de cores vivas, pontuada por dourados num quase padrão, esta superfície, mesmo a curta distância, faz-nos acreditar que estamos perante uma tapeçaria grandiosa. A um olhar mais próximo e atento, percebemos que estamos diante de um desenho de grandes dimensões e repleto de cores vivas em representações magistrais de fauna e flora que remetem para um lugar talvez só possível em fantasia.

No centro da primeira sala da galeria, um conjunto de esculturas douradas (Jóias, 2014) aparecem pousadas numa mesa, como que num registo performático de uma acção que já aconteceu e que não testemunhámos a não ser pela observação do que ali parece ter ficado num compasso de espera. Do lado direito, um tríptico (Enamorados pelo Pavão, 2014) e um díptico (Jardim Fictício, 2014) recuperam, em termos formais, uma tradição na história da arte de dividir uma obra em três ou duas partes. Páginas do que parece ser uma enciclopédia antiga são habitadas por animais que passam de uma para outra página, ocupando e ultrapassando todo o espaço que conseguem, num serpentear de cores, movimentos cheios de destreza e liberdade, e camadas de cor pontuadas por dourados subtis. Camadas que apagam letras e as suas referências, num constante processo, simultaneamente, de apagar e reconstruir.

© Bela Silva, cortesia da artista.

© Bela Silva, cortesia da artista.

Do outro lado da mesma sala, desenhos sobre cartão mostram animais, folhas e flores, em traços tão fluídos quanto os movimentos que sugerem, sobre várias camadas de tinta que terão apagado outros habitantes daquele espaço que a artista criou e deixou agora, propositadamente, num plano secundário e misterioso.

Na sala seguinte, dois desenhos de grande dimensão (O lado romântico de Midas, 2014; A tigela encantada, 2014), agora com espaços em branco contrastantes com a densidade dos desenhos anteriores, balizam o espaço e fazem-nos voltar ao momento antes de entrar na exposição. Funciona assim, a segunda e última sala, como uma repetição da primeira sensação de aparência revelada, ainda antes de entrar no espaço, num regressar ao ponto de partida.

Toque de Midas de Bela Silva converte o espaço da Galeria num mundo de fantasia, de transformação, de passagens e camadas. O processo desta conversão afirma, em última instancia, uma máquina irónica sobre as camadas, sobre o processo de aparência e de descontentamento com a realidade que é inerente à lenda do Toque de Midas, à arte e, também aos comportamentos humanos. É nesta conversão que a construção complexa e metafórica do Toque de Midas se afirma como um momento da reflexão de Bela Silva sobre o que é ler histórias e não sobre o que as histórias deixam ler. Cabe a nós o papel de ler e de fazermos com a nossa leitura o que a nossa consciência determinar. – Luísa Santos, curadora

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Bela Silva

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