Carlos Correia: quadro/ mesa

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Galeria Pedro Oliveira (Porto)

19.11. 2013 – 04.01.2014

Inauguração: 16.11.2013 (16h) 

Carlos Correia: quadro/ mesa

Texto de João Silvério

A obra de Carlos Correia (Lisboa, 1975) é sobre a pintura, como disciplina e actividade reflexiva que se põe perante nós enquanto modo de fazer. Esta exposição, intitulada “quadro-mesa”, representa uma viragem aparente, uma progressão no seu trabalho que abre um outro campo de investigação sem perder de vista uma atenção focada sobre a história da arte e em particular sobre a história das imagens. Nesse correlato histórico, a pintura ocupa um campo amplo e profícuo, que o artista perscruta no sentido de compreender as suas contradições e as rupturas de que foi protagonista.

A exposição não obedece, por assim dizer, a um tema ou género reconhecível. Ao invés, Carlos Correia iniciou uma nova série de pinturas e desenhos que se afastam da representação da figura humana, resgatada nas imagens do seu campo de investigação, cuja temática percorria um âmbito alargado em que a figura pautava questões sociais, historicistas e formais. Por outro lado, a actividade deste artista não se resume apenas à pintura; o desenho e a edição de livros de artista fazem parte do seu universo, onde questões como a cópia, a reprodução ou a serialidade são concomitantemente presentes numa aturada investigação estética e filosófica que concorre para o desenvolvimento da sua obra plástica. A sua prática editorial, sob a égide benjaminiana, levou à criação de uma editora, de pequena dimensão, intitulada “LOSSOFAURA”, onde publicou, até ao presente, seis títulos dedicados à escrita/desenho, à pintura e a algumas reflexões sobre a arte e o seu actual contexto.

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O título da exposição, “quadro-mesa”, em letra minúscula, revela uma estreita proximidade com a escrita. A sua própria escrita, entre anotações e reflexões pessoais, e a palavra escrita que outros dispõem como janelas e portas que se abrem e fecham ao pensar o mundo que o rodeia, à distância que a mão alcança mas que o olhar transgride, convocando para estas pinturas uma visão interior, espacialmente austera e despojada. É nesta cisão entre a proximidade da mão, presente na ideia de mesa, e a ultrapassagem do seu olhar repensando a condição do quadro enquanto unidade perene da representação, que Carlos Correia constrói imagens de interiores, como contentores, em que a perspectiva, aliada a uma virtuosa escolha cromática, vai reordenando sucessivamente arquitecturas e planos abstractos que se reificam sob o binómio quadro-mesa.

A pintura é rica em contrastes e velaturas, pregas, dobras, sobreposições de camadas de tinta e indícios de registos anteriores. Mas é a geometria, quase orgânica, que restaura os espaços fechados onde por vezes nos confrontamos com uma composição em mise en abyme, no seu sentido cinematográfico.

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Duas obras, respectivamente Sem título (quadro; mesa #009) e Sem título (quadro; mesa #004), são exemplares deste processo de construção e síntese que o pintor desenvolve como um ensaio. Na primeira obra aqui referida vemos um espaço dentro de outro espaço, como se se tratasse de uma câmara dentro de uma outra câmara em que ambas estão sujeitas a um emergente movimento que os planos horizontais, quais mesas disponíveis para uma qualquer acção, parecem contrariar. Na segunda obra, Sem título (quadro; mesa #004) os planos de tom mais claro, próximo do branco, estão encostados a uma suposta parede, como telas, pranchas, ou elementos construtivos da pintura, que evidenciam a memória de um espaço disponível para um qualquer acontecimento.

Neste aspecto, as pinturas (e os desenhos) revelam uma estrutura complexa em termos compósitos. Serão construtivistas na sua génese? Serão decerto uma leitura do espaço de trabalho, do atelier, mas também da espacialidade enquanto lugar do olhar e da sua transitoriedade contemplativa, numa referência ao Kabinet für Abstrakte Kunst, pensado e criado por El Lissitzky.

Contudo, o universo da escrita cruza-se, uma outra vez, com a obra do pintor. No decorrer do seu recente trabalho, aqui presente, Carlos Correia encontrou uma correspondência com a sua investigaçãopictórica numa breve passagem de Georges Didi-Huberman (1), que passo a citar:

“Mas a prestigiosa palavra quadro (tableau) deriva directamente, pelo menos em francês, de uma palavra latina absolutamente banal, tabula, que significa apenas prancha (planche). Uma prancha para tudo: para escrever, para contar, para jogar, para comer, para ordenar, para desordenar… Na prática do Atlas de Gerhard Richter, como outrora nas séries de pranchas gravadas em vários “estados” por Rembrandt, é indubitável que se trata mais de tábuas (tables) do que de quadros. Isto significa, antes de tudo, a renúncia a qualquer unidade visual e a qualquer imobilização temporal: espaços e tempos heterógeneos não param de se encontrar, de se confrontar, de se cruzar ou amalgamar.
O quadro é uma obra, um resultado onde tudo à partida se encontra consumado; a mesa, por seu turno, um dispositivo onde tudo poderá recomeçar novamente. Um quadro pendura-se nas paredes de um museu; uma mesa reutiliza-se sempre para novos banquetes, novas configurações.”

(1) Didi-Huberman, Georges, Atlas ou a Gaia Ciência Inquieta – O Olho da História 3, ed. KKYM + EAUM, Lisboa 2013, p. 54

João Silvério (Novembro, 2013)

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+ info:

Carlos Correia

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(C) imagens: © Carlos Correia. Cortesia do artista e Galeria Pedro Oliveira, Porto.

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