Bienal de Lyon 2013

> 5 de Janeiro (2013)

Biennale de Lyon

Meanwhile… Suddenly, And then (Entretanto… Subitamente / E depois)

A Narrativa

Para alguns, a arte é uma linguagem estrutural com uma narrativa óbvia, para outros é uma imagem silenciosa, com alguma coisa sobre a qual se pode dizer algo de vago. À semelhança do ‘Visconde Partido ao Meio’, de Italo Calvino, é um terreno fendido com clivagens permeáveis, uma área onde actuam duas facções opostas e antagónicas. Por um lado, a ideia de que nada excepto a linguagem é que conta uma história, foi rejeitada. Por outro lado, como defende Nelson Goodman, as pessoas pensam que as obras de arte exemplificam a forma, o sentimento e as ideias, e que podem construir mundos inteiros. A polémica é tão antiga quanto insolúvel.

As pessoas sempre tentaram explicar o mundo através da narrativa. Começou com mitos. A seguir vieram os deuses e as lendas e depois a história. E, obviamente, pertencendo tudo à linguagem, articulada ou não, falada ou escrita ou mantida em silêncio – histeria, poesia, literatura, pensamento. Mas o que é que as imagens nos dizem? A Batalha de Alexandre, de Altdorfer, tem alguma coisa a dizer? Será que nos está a dizer que desde Issus, no período helenista, a Guilherme IV da Baviera nada mudou, que foi sempre tudo igual e que a história tem de ser reinventada? E o Baptismo de Cristo, de Piero della Francesca revela-nos alguma coisa? Estará a querer dizer-nos que o acordo entre o Oriente e o Ocidente é frágil ou que o espírito é todo um? Será que estas imagens contam tudo isto, ou nada disto?

E, apesar disso, quer seja a obra de arte a contar a história ou a história a falar, há alguma coisa que observa o mundo inteiro como se fosse uma narrativa.

O Texto

Em meados da década de 1980 um novo herói “universal” ganhou existência na forma de Texto. Fruto da união sagrada entre o estruturalismo europeu e a textualidade académica americana, difundiu-se pelo mundo inteiro tornando-se, ao longo do processo, um “intertexto” e, a seguir, um “supertexto” generalizado. Fredric Jameson expressou-o da seguinte maneira: «A linguagem mais antiga da “obra” – a obra de arte, a obra-prima – foi extremamente deslocada em toda a parte pela linguagem particularmente diferente do “texto”, dos textos e da textualidade – uma linguagem da qual a realização da forma orgânica ou monumental é estrategicamente excluída. Actualmente, tudo pode ser um texto nesse sentido (a vida do quotidiano, o corpo, as representações políticas), enquanto os objectos que anteriormente eram “obras” podem agora ser relidos como conjuntos ou enormes sistemas de textos de vários tipos.” Por conseguinte, a “ditadura” do futuro, suportada até então aos ombros da história messiânica, a dos tempos modernos, foi minada a favor de uma narrativa infinita, abrangendo o aqui e agora, o acontecimento e, claro, a imagem.

Foi nesse preciso momento que artistas, ou antes, artistas inventados, se apoderaram de novas formas de composição para narrativas visuais. De repente estavam a trepar paredes, a filmar coisas, a usar máscaras, a desenhar, a esculpir, e tudo isto ao mesmo tempo. Eles constroem coisas, mexem no que está em volta, vagueiam, concentram e sobrepõem temporalidades, suportes, sombras e inversões, desvelam coisas, revelam coisas. Descobriram a complexidade das temporalidades do mundo e das micronarrativas que informam o mundo. Seja o que for que estão a fazer, estão a contar histórias, que é outra maneira de dizer que estão a transmitir.

Conta-me uma história

Para Gunnar B. Kvaran, colocar a narrativa lado a lado com a transmissão é afirmar o óbvio acerca daquilo que acontece («A realidade é aquilo que acontece», como disse alguém). A resposta de Gunnar B. Kvaran ao neomodernismo que cobre as nossas paredes com uma pátina de doce nostalgia é formulada para dar uma nova ênfase à forma, que é uma forma totalmente nova de pensamento. E a forma desse pensamento é provavelmente aquilo que é mais eloquente acerca desse pensamento. Uma história pode ser tão boa quanto se quiser, mas o que faz com que ela sobressaia no fim é a relevância da sua forma. A forma gera o significado ao formar a narrativa. O Principezinho dizia: «Conta-me uma história». O poeta desenhou-a.

Curador Convidado: Gunnar B. Kvaran

Os romancistas e os guionistas sempre viveram na expectativa de terem uma história interessante para contar. Hoje em dia, também os políticos e os publicitários estão atentos a uma boa história que pode ser utilizada para influenciar os eleitores e os consumidores. Não só há “inúmeras formas de narrativa no mundo”, como escreve Roland Barthes, como se encontram actualmente em todo o lado e são uma parte integrante do nosso quotidiano.

A Bienal de Lyon de 2013 reuniu artistas de todas as partes do mundo que trabalham no campo da narrativa e que utilizam a arte para testar modalidades e mecanismos da arte de contar histórias. A exposição destaca o engenho e a criatividade de artistas contemporâneos, na desconstrução dos códigos da narrativa dominante e dos instrumentos pré-construídos do enredo, para contar histórias novas de uma maneira diferente.

A arte desses artistas que contam histórias surge de muitas e variadas formas e utiliza uma abundância de registos, materiais e técnicas diferentes. É portanto natural que a exposição inclua esculturas, pinturas, imagens fixas, imagens animadas, combinação de textos, combinação de sons e de objectos no espaço, bem como performances. Destaca a maneira (ou “maneiras”) como os jovens artistas de hoje – independentemente de trabalharem na Europa, na Ásia, na América Latina, em África ou na América do Norte – imaginam as narrativas de amanhã: narrativas que dispensam o suspense e o entusiasmo da ficção globalizada tal como é praticada em Hollywood, na televisão ou nos best-sellers da literatura universal. As suas narrativas são narrativas completamente novas que nos “desfamiliarizam “com o mundo e que reconstituem a estranheza profundamente enraizada e a complexidade que os instrumentos clássicos de contar uma história sempre tentaram resolver ou abafar. São narrativas de arte que nos permitem ver e compreender o mundo sob uma luz diferente e mais inteligível.

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Biennale de Lyon

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