Rui Valério: Sabotage

14 Setembro – 26 Outubro (2013)

Galeria Graça Brandão (Lisboa)

um projecto: Francisco Fino Art Projects

Sabotage parte da ideia de reinterpretação de outras obras de arte de referência. Rui Valério levou-as a uma mesa de mistura e, submeteu-as a processos de deejaying. Através de operações bastante simples mas com efeito significativamente transformador, tornam-se outras.

É uma exposição onde som, objecto visual, luz, história de arte e espaço arquitectónico se confundem e contaminam e todos são sujeito e presença.

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Se pensarmos em geometria chamamos a dois planos que se cruzam, planos intersectados. Nessa intersecção eles cortam-se e interrompem-se ao mesmo tempo que se unem e passam a formar um todo indissociável.

Aí pertence o trabalho de Rui Valério, o lugar onde se materializa a intersecção, onde se transpõem, combinam e misturam ligações inesperadas. Os objectos artísticos que nos apresenta, são sempre uma coisa e outra, obrigando-nos a senti-los e a percebê-los em sentidos que se interceptam. São objectos provocatórios que exploram significados sinestésicos e linguísticos que nos confundem mas nos alargam as capacidades perceptivas e de interpretação. Esta provocação, contém ainda um forte sentido lúdico, feito de jogo, brincadeira e ironia, que nos desconcerta e desordena para, no fim, nos oferecer algo novo.

Diríamos que três planos fundamentais têm estado coerentemente presentes e cruzados no percurso artístico de RV. A atitude experimentalista, a conexão e transposição entre universo sonoro/ musical e o universo visual/ artístico, a referência à história da arte conceptual.

Sabotage é na primeira impressão um clima, uma composição. O espaço da galeria é tornado um espaço total, onde som, objecto visual, história da arte, luz e espaço arquitectónico se confundem e contaminam, onde todos são sujeito e presença.

A exposição parte da ideia de adulteração e reinterpretação de outras obras de arte. Os objectos e conceitos são submetidos a operações bastante simples mas com um efeito massivamente transformador. Tornam-se outros. Explora-se o potencial de simultâneo reconhecimento e surpresa: “Estas obras são duplos de outras obras. Estas obras não são duplos de outras obras”, diz o artista.Os enunciados das peças de origem são amplificados, tornam-se sonoras, mudam de escala, tornam-se visíveis e/ ou audíveis qualidades escondidas, obras diferentes são misturadas entre si. Manifestam-se contradições, inverte-se o sentido da percepção – cognição, desdobram-se significados, cita-se mas com voz própria.

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Rui Valério, por um lado apropria-se, sabota, subverte. Por outro, referencia, homenageia, reconhece à fonte o seu poder de não ser passado ou arquivo morto, mas continuar a ser estímulo. O poder de poder ser, de novo, novo. A intersecção também aqui se exerce, é troca e avanço, os objectos ficam crivados por outro pensamento artístico, outro universo próprio.

Implícitas estão também as reflexões sobre o novo, a originalidade. Sobre os processos de criação e sobre a condição da arte e do artista. A arte é um acto público e enquanto tal é entregue ao mundo. Nesse momento é representante de uma actualidade mas se permanecer pensamento vivo fica sujeita à transformação.

Ao artista cabe criar arte. E fazê-lo com o seu próprio selo e com as condições do momento em que vive. O selo não é senão aquilo que ele é capaz de reinventar e originar a partir da sua limitação e singularidade perante o que existe ao seu dispor. Um jogo entre possibilidades e impossibilidades, mas uma busca de revelação e novas associações. A regra desse jogo é a experimentação.

Voltamos assim ao título da exposição, Sabotage. Como se inventa o novo senão pela subversão do que já existe? Experimentalismo é risco e provocação, é inovar, é pegar pelo avesso. É sabotagem ou experimentalismo? É uma coisa e a outra. A intersecção ou a convergência de sentidos, mesmo se contraditórios, é sempre uma verdade mais inteira.

– Joana Coelho (Setembro 2013)

Galeria Graça Brandão
Rua dos Caetanos, 26
Bairro Alto, Lisboa

Rui Valério (1969, Lisboa, Portugal) é licenciado em Artes Plásticas – Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL) e tem um Mestrado em Artes Visuais – Intermédia pela Universidade de Évora. É professor do Departamento de Artes Visuais e Design da Universidade de Évora desde 2002. Trabalha maioritariamente com instalação e som.

Texto de Joana Coelho

Fotografias da exposição: © Francisco Nogueira. Cortesia de Francisco Fino Art Projects

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