Rui Chafes: Carne Misteriosa

RC

Rui Chafes, exposição Carne Misteriosa no MAM, Rio de Janeiro, 2013.

MAM – Museu de Arte Moderna (Rio de Janeiro, Brasil)

26 de Abril a 16 de Junho de 2013

Esta exposição tem como objectivo principal apresentar, ao público brasileiro, a obra de Rui Chafes considerado um dos mais importantes artistas da sua geração. Foi contemplado, em 2012, com o prémio de melhor artista europeu pela ARCO-Madrid. Tem participado em importantes mostras internacionais como as Bienais de Veneza (1995) e de São Paulo (2004) e realizado diversas exposições individuais nos principais museus e galerias a nível internacional.

Esta mostra faz parte da programação do Ano de Portugal no Brasil.

Curadoria de Marcio Doctors

A obra de Rui Chafes caracteriza-se por um imaginário singular que nos surpreende pelo inusitado da forma e que nos remete a um universo de fabulações contemporâneas em que as volutas do Romantismo acomodem-se organicamente ao rigor formal do Minimalismo. A sua matéria prima é o ferro, quase sempre pintado de preto; a técnica, a tradição ibérica da escultura em metal. No entanto, mais do que a escultura como objeto fetiche, o que lhe interessa é a arte como sensação e conceito capazes de restaurar a falta de espiritualidade do mundo contemporâneo. É uma obra que desafia e instiga pela maneira como silenciosamente questiona o modo como hoje a arte é tratada ao ser confundida com  as práticas do mundo do espetáculo.  Esta exposição será uma oportunidade única de penetrarmos no universo de um artista cuja coerência é a integridade ética e estética de sua obra.  

A exposição foi concebida a partir da vontade de juntar dois elementos: o ferro e as palavras. O ferro porque Rui é um artista ferreiro e esse é o material com que trabalha, e as palavras porque elas também são parte fundamental de sua obra e do seu interesse como artista (basta conferir os títulos de suas esculturas). Da dureza do ferro ele erige presenças, criando potências precisas de cutelo que nos afetam, atingindo nossas lembranças com imagens inesquecíveis, que são como epifanias; e com as palavras ele tece os sentidos impalpáveis que envolvem suas esculturas, permeando-as com ideias, conceitos e poesia. Por isso “carne misteriosa”: o conteúdo de suas esculturas são as palavras; o continente de suas palavras são as esculturas negras de ferro. Como o mistério da carne – como de toda expressão da natureza para o homem – a matéria, o espírito e o sentido.

Mas não me bastaram o ferro e as palavras. Para mim Rui Chafes é mais do que isso. Não resisto aos vocábulos “deriva” e “fenda”. Suas palavras deslizam e nos induzem para um território de desmaterialização do objeto, colocando-o sempre em xeque, criando sulcos que revelam as verdadeiras intensidades da vida. Ele não é um fetichista. Apesar de escultor, o objeto em si não lhe interessa. O que lhe interessa, assim como para Giacometti, é a luta constante com e contra a forma para dela extrair a potência da expressão, que faz parte do mundo dos mortos, onde a presença já não é o mais fundamental. A forma não lhe basta. Suas esculturas, como ele próprio diz, são como módulos de pensamento, catalisadores e transmissores de forças. São pontos baços de resistência para que abram caminhos para as intensidades dos afetos e das energias que circulam e que circundam o mundo, que vêm do acúmulo do passado e que abrem o caminho para as potências do devir, revelando-nos a densidade e a intensidade da existência, em que a carne do mundo palpita: onde o fim se junta ao começo.

Por isso, certas estratégias, para além da forma da escultura, que percebi presentes em sua obra me interessaram e busquei destacá-las nesta exposição: o roubo, o abandono, a destruição, a fala, o grande, o pequeno, o leve, o pesado, a proximidade, a distância, o monumento, o amuleto, a solidão, a morte.

Juntamente com Gerardo Vilaseca concebemos uma exposição em dois níveis. O visitante se deparará com uma exposição que induz um duplo olhar: ela pode e deve ser vista tanto de cima quanto de baixo. No rés do chão são sete salas. No alto, estão as grandes esculturas e alguns textos do curador. Já nessa estrutura há uma incursão na relação do grande e do pequeno. No alto ou penduradas, elevam-se, contra o próprio peso, esculturas monumentais que nos dão a sensação de leveza. As salas abrigam esculturas menores, projeções, gravações e fotografias.

– Marcio Doctors, Curador

Rui Chafes, A Solidão de Chirico.

Rui Chafes, A Solidão de Chirico © Rui Chafes.

(C) imagens: cortesia do MAM Rio de Janeiro (Brasil) e do Ano de Portugal no Brasil, 2013.

 

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