Nikias Skapinakis: Presente e Passado (2012-1950)

Nikias Skapinakis, da exposição Presente e Passado (2012-1950) no Museu Coleção Berardo, 2012.

Nikias Skapinakis, da exposição Presente e Passado (2012-1950) no Museu Coleção Berardo, 2012.

Presente e Passado | 2012-1950

@ Museu Colecção Berardo  (até 24 de junho)

“A responsabilidade do plano desta exposição cabe-me inteiramente. Não pretendo, aliás, apresentar uma retrospectiva – já que entendo que é o tempo que se encarrega do historial dos acontecimentos.

Pretendi, antes, delinear uma escolha de obras, em função de conjuntos que pudessem resumir e tornar compreensível o meu trabalho de pintor. Pela primeira vez, sem interrupções, uma exposição abrange a minha intervenção, que parte, propositadamente, do presente para o passado.

Fui, de resto, objecto de outras antologias significativas: no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1985, no Museu do Chiado, em 1996 e no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, em 2000. Os parâmetros museológicos e as minhas próprias intenções limitaram, porém, o âmbito temporal dessas apresentações. A exposição no Museu Coleção Berardo constitui, portanto o mais vasto depoimento que realizei sobre o meu trabalho. Com o passar dos anos, forma-me atribuídas algumas classificações genéricas – expressionista, neo-realista, pop, pós-modernista, clássico, metafísico… com excepção da asserção neo-realista, que era despropositada, todas as outras designações respeitam, efetivamente, a aspetos mais ou menos prolongados do meu trabalho. Todavia, e embora reconheça a sua eficácia didática, penso que nenhuma delas abarca o sentido geral da minha pintura, na medida em que ficam de fora dessas classificações aspetos que julgo significativos e que sobram do é arrumado do ponto de vista crítico.  

Os meus começos não tiveram nada em comum com  o movimento neo-realista: bem pelo contrário, como esta exposição demonstra. Nos anos 1950, a minha ligação foi essencialmente à primeira escola de Paris, e nela avulta a figura tutelar de Chagall. Seguiram-se-lhe, naturalmente, muitas outras, contemporâneas e muitas vezes pertencendo ao passado, como no caso da perene recordação do Greco de Toledo. Essas múltiplas influências educaram o meu olhar e guiaram a minha mão, permitindo-me a afirmação de uma expressão pictórica que entendo própria. 

A pintura italiana do Quattrocento teve muita importância para o meu trabalho, todavia os grandes pintores italianos do século XX, como De Chirico e Morandi, que sempre admirei, nunca constituíram uma fonte de inspiração (é para Zurbaran que olho e também para Chardin).

O sentido metafísico, que juntamente com o pendor expressionista e lírico, atravessa prolongadamente o meu trabalho, tem, do meu ponto de vista, uma tripla origem: 

– Os frescos “clássicos” e “modernos” da Vila dos Mistérios em Pompeia, e Carpaccio, a quem dedico em 1961 uma homenagem, porque, justamente, venho a encontrar nele o sentido de ausência das figuras que habitavam o meu paisagismo de então;

– A poesia, designadamente, de Cesário e “presencistas”;

– A pressão claustrofóbica e entediante do ambiente português das décadas de 1950 e 60. 

O meu silêncio permaneceu sempre ligado ao real quotidiano.

Mas, naturalmente, o tempo aperta e simplifica o entendimento das coisas. 

De qualquer modo, porém, acredito que a minha “linha metafísica” se liga essencialmente a uma conceção individualizada da pintura como um processo de conhecimento, literalmente, para além das aparências físicas, que os sentidos transmitem.

Esse processo define a história da pintura desde o seu remoto passado até ao presente. Porque é específico, não pode ser repartido por outros campos estéticos sem que essa qualidade essencial de indagação tenda a alterar-se ou a perder-se em favor de outras (embora igualmente válidas) expressões. Trata-se de procurar a essência das coisas; mas, talvez, as coisas não tenham realmente essência nenhuma e a sua busca seja inútil. 

É uma dúvida de natureza metafísica que procuro resolver continuando a pintar.”

Nikias Skapinakis, 2012.

Comissária: Raquel Henriques da Silva

A seguir slideshow com 41 fotografias da exposição:

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© Obras do pintor Nikias Skapinakis, da exposição ‘Presente e Passado (2012-1950)’ no Museu Coleção Berardo. Fotografias da exposição: This is Now/Making Art Happen.

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